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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Novo relatório sugere que sexo é mais seguro no hospital *

Segundo um relatório elaborado por médicos de família, terapeutas sexuais, ginecologistas e obstetras, o sexo é mais seguro quando feito sob o olhar cuidado de profissionais. "Sexo não é tão seguro como muitos são levados a crer." Diz um médico. "Todos o tipo de traumas físicos, emocionais e reprodutivos são diagnosticados a cada ano por profissionais médicos, muitos dos quais poderiam ser evitados se o sexo fosse realizado num ambiente seguro." Entre a lista de lesões / riscos relatados encontramos: danos nos mamilos, dores de cabeça, gravidez indesejada, tensões musculares, cãibras, desidratação, exaustão, propagação de constipações e vírus da gripe e mini-lacerações vaginais."Sexo deve ser feito sob a orientação de um profissional. Sexo não é instintivo. É incorrecto dizer que surge naturalmente e deve, portanto, destinar-se a pessoas sem formação específica ou pessoas inexperientes". Afirma outro colaborador. De acordo com o relatório, ter relações sexuais em meio hospitalar com o benefício de "assistência dirigida" terá como resultado uma melhor experiência para ambas as partes, e um muito maior equilíbrio na proporção risco / benefício para aqueles que querem controlar e fazer as suas escolhas no que diz respeito ao planeamento familiar. O relatório afirma que ter acesso a coisas como "máscaras" para reduzir a propagação da constipação e vírus da gripe e profissionais médicos para responder às perguntas ou assumir o comando no caso de algo não correr de acordo com o planeado, proporciona aos jovens uma tranquilidade e segurança que não poderiam encontrar no domicílio. "Por exemplo: Se um casal está no hospital a tentar conceber um bebé e eles enfrentam uma disfunção sexual por parte da mulher, existe um terapeuta sexual em stand-by pronto para lhe prestar aconselhamento. E se ela não tiver capacidade para relaxar e produzir lubrificação suficiente para ter relações sexuais sem dor, temos uma epidural pronta e um ginecologista na hora, de luvas calçadas e pronto para inserir a lubrificação, conforme necessário. É o cenário ideal! " "Ter relações sexuais em casa não é apenas irresponsável porque coloca em risco diversos aspectos físicos, é também ridículo. Porquê escolher fazê-lo de forma tão pouco civilizada, quando o hospital oferece uma alternativa melhor? "Declarações de um Director de Serviço de Obstetrícia. Quando questionados sobre os riscos de contraír doenças sexualmente transmissíveis, doenças mais perigosas como Staph, outras doenças que se desenvolvem em meio hospitalar e doenças resistentes, os participantes garantiram-nos que não havia mais riscos do que em qualquer outro internamento hospitalar. Quando questionados sobre "necessidades emocionais", e "criar o ambiente", factores que se tem verificado que aumentam naturalmente a resposta sexual da mulher e a aprontam para a intimidade e a concepção, os médicos responderam desta forma: "À medida que as mulheres começam a ver como benéfica esta nova maneira de conceber filhos e partilhar a intimidade sexual com os seus parceiros, elas irão alterar as suas expectativas e adaptar-se de forma a responder e colaborar da forma que desejamos. E se não o fizerem, nós estaremos lá para garantir que tudo decorre “de forma tranquila". Também é importante lembrar que não são as necessidades do indivíduo que importam nesta situação, mas o sucesso global da sua escolha em ter relações sexuais de forma responsável e inteligente".

* Trata-se evidentemente de uma paródia sobre o que tem vindo a acontecer com o nascimento, um processo natural que deve claramente ser dirigido pela mulher, e que se tornou num campo fundamental da defesa dos Direitos Humanos. Se nos rendemos e entregamos os nossos direitos sobre o nosso corpo e as nossas escolhas no que diz respeito à nossa saúde ... o que virá depois?!

Texto original de: Marci Macari (http://www.shebirths.com/shebirthstheblog/)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Menos cesarianas, mais qualidade

2007/11/26Pais&Filhos
Maria João Amorim

Valores baixos de partos cirúrgicos correspondem a bons serviços de saúde, números altos são sinal de cuidados dúbios. É essa a convicção da natureza e da ciência. Portugal detém uma das mais elevadas taxas de cesariana da Europa.
«Como é que uma maravilhosa intervenção de salvamento se tornou um modo banal de nascer?», interroga-se o famoso médico francês Michel Odent, para muitos um filósofo do parto, no seu mais recente livro dedicado à técnica que ele próprio ajudou a trazer ao mundo, a cesariana.


Odent, cirurgião de formação, foi um dos primeiros médicos a realizar partos cirúrgicos com segurança, tendo, por isso, acompanhado de perto a história da cesariana nos últimos 50 anos. No livro «A cesariana: operação de salvamento ou indústria do nascimento?» (editado em Portugal pela Miosótis), o especialista apresenta uma visão muito crítica sobre a forma como se nasce actualmente, atirando questões lapidares: «porque é que há sítios onde os nascimentos por cesariana são menos de 10 por cento e outros em que são mais de 50 por cento?» ou «que sabemos nós das consequências a longo prazo do nascimento por cesariana?».

O tom é de censura, mas Michel Odent conhece bem as virtudes do recurso ao bisturi durante o parto. Tão bem que não subscreve a vulgarização da técnica. Não se trata, afinal, de uma operação de salvamento?...

Vulgar é o adjectivo correcto para classificar o parto por cesariana actualmente. Em 2005, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), 34,7 por cento dos bebés em Portugal nasceram numa sala de operações. Em números concretos: 37 194 cesarianas foram realizadas nos hospitais e maternidades portuguesas.

Um número superior à media europeia, situada nos 27-28 por cento, e substancialmente mais elevado do que a taxa recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) ¿ 10 a 15 por cento.

A tendência é para o aumento do número de nascimentos por cesariana, afirma o presidente do Colégio de Ginecologia e Obstetrícia da Ordem dos Médicos, Luis Graça. Assim aconteceu nos EUA e na Europa, assim acontecerá em Portugal. Por vários motivos, sublinha o responsável.

O «risco de litigância judicial» é um deles: «Quando ocorre um incidente intra-parto, com repercussão sobre a vitalidade do recém-nascido, juízes e advogados têm sempre como primeiro argumento acusatório o facto de os médicos não terem optado pela cesariana.»

A vontade das mulheres é outro: «Cada vez mais as grávidas solicitam que seja praticada uma cesariana electiva para não terem de passar pelo incómodo do trabalho de parto - na Austrália, uma em cada dez cesarianas já é feita por expressa decisão da grávida e em Portugal isso é cada vez mais frequente», afirma Luis Graça.

De facto, o número de partos cirúrgicos não tem parado de aumentar em Portugal. Em 2002, a cifra atingiu os 30,5 por cento. Um ano depois, nova subida para 32,3 por cento. E em 2005, a taxa de cesarianas alcançou o expressivo valor de 34,7 por cento, o mais alto de sempre e um dos maiores a nível europeu. Países como o Reino Unido e a França detêm taxas substancialmente inferiores: 23 e 19,6 por cento respectivamente.

Baixar os números com segurança
A redução das taxas de cesariana é considerada pela OMS um indicador de qualidade dos cuidados de saúde materno-fetais. Médicos e enfermeiros em Portugal têm contestado os valores nacionais e alguns hospitais já desenvolveram estratégias para diminuir o número de nascimentos cirúrgicos.

É o caso da Maternidade Alfredo da Costa (MAC), em Lisboa, a braços com uma taxa de cesarianas de 34 por cento em 2006. O trabalho já começou. De acordo com Clara Soares, coordenadora da Urgência, está a ser feito um «levantamento exaustivo» de todas as cesarianas realizadas na urgência da maternidade no ano passado com o objectivo de perceber, em concreto, as razões que levaram à opção pelo parto cirúrgico.
O estudo ainda não está totalmente concluído, mas a tomada de consciência desses motivos por parte dos profissionais já teve um efeito nos números de 2007: nos primeiros seis meses, a taxa de cesarianas não chegou aos 30 por cento (29,8), um valor bastante inferior ao registado no mesmo período em 2006 ¿ 34,6 por cento.

«Mesmo que suba, a taxa deste ano já é melhor do que a do ano passado», afirma Clara Soares, que encara a redução do número de nascimentos cirúrgicos na MAC como uma «prioridade».

A médica faz questão de sublinhar que nenhuma cesariana foi evitada pondo em causa a saúde do bebé: «A taxa de complicações decorrentes do parto mantém-se dentro dos valores de referência internacionais. Este ano tivemos até um número ligeiramente inferior.»

O grande conjunto de cirurgias identificado, esclarece Clara Soares, ocorreu na sequência de induções de parto sem indicação clínica. Uma intervenção que, feita numa altura em que o colo do útero ainda não está suficientemente maduro, pode ter como desfecho a cesariana por dificuldades na progressão do parto.

O receio com o bem-estar do bebé foi outro dos motivos frequentemente invocados para realizar uma cesariana. A MAC adquiriu recentemente um novo sistema de monitorização fetal que permite uma avaliação mais fidedigna do estado do bebé. A redução do número de cirurgias verificada este ano é um sinal da sua eficácia.

«Banalizou-se a ideia de que a cesariana é uma panaceia, mas é preciso não esquecer que estamos a falar de uma grande cirurgia, associada a índices de mortalidade e morbilidade mais elevados do que no parto normal», critica Clara Soares.

Do lado das mulheres, também há responsabilidades: «Já não é só uma questão de fugir à dor, é também um problema de tempo. As mulheres têm hoje a vida muito programada, não querem trabalhos de parto muito longos. É uma 'perda de tempo' estar muitas horas à espera que o bebé nasça.»
Até onde pode baixar a taxa de cesarianas na MAC? Para já, até aos 30 por cento, diz Clara Soares. «Novas metas, só depois de concluída a avaliação dos casos registados em 2006.»

Até aos 25 por cento e mais além
Mas é a Norte que está o maior exemplo da redução segura da taxa de cesarianas. Desde 2001 que os responsáveis do Hospital de São João (HSJ), no Porto, estão preocupados com esta questão. Os 36,5 por cento de cesarianas registadas nesse ano foram o ponto de partida para a mudança.

Nunca o hospital tinha registado um valor tão alto de nascimentos na sala de operações. Diogo Ayres de Campos, director da Urgência de Ginecologia e Obstetrícia do HSJ explica que o primeiro passo foi a distribuição pelos profissionais de um documento a chamar a atenção para os riscos do parto cirúrgico.

«Seguidamente, instituímos a discussão diária de todos os casos ocorridos na urgência e a apresentação pública do número de cirurgias por equipa.» Primeiros resultados, um ano depois de arrancar com estas medidas organizativas: a taxa de cesarianas desceu praticamente dez pontos percentuais.

Diogo Ayres de Campos recorda as discrepâncias «chocantes» registadas na altura entre as várias equipas da urgência: «Umas apresentavam taxas de cesariana de 16 por cento e outras de 42 por cento...» A crítica solta-se das suas palavras: «Por vezes, o hospital é uma extensão do consultório privado.»

Actualmente, o HSJ regista uma taxa de partos cirúrgicos de 27,2 por cento, mas a meta é chegar aos 25 por cento. Uma fasquia que Diogo Ayres de Campos considera «perfeitamente» atingível. Basta apenas que a postura dos profissionais seja um pouco mais «colectiva». Sendo certo, no entanto, que para haver uma redução efectiva do número de cesarianas, a mudança «tem de vir de cima».

Já Luis Graça não acha «excessivamente importante a preocupação com a baixa 'forçada' do número de cesarianas».

O médico ressalva que o incremento da taxa de partos cirúrgicos foi paralela à diminuição da mortalidade e morbilidade perinatal, «cujos níveis portugueses são dos melhores do mundo». Acredita, no entanto, que «com alguma pedagogia», a taxa de cesarianas possa baixar dois a três pontos percentuais.


Preocupação científica
É preciso bem mais do que pedagogia, diriam os investigadores canadianos que conduziram um estudo retrospectivo sobre estratégias para baixar eficazmente o número de cesarianas sem pôr em causa a saúde de mães e bebés.

«A taxa de cesarianas pode ser reduzida com segurança se os profissionais de saúde analisarem e modificarem as suas práticas», escreveram os cientistas na edição de Março da revista Birth. A preocupação com a taxa canadiana de nascimentos cirúrgicos - 22,5 por cento em 2002, o valor mais alto de sempre - foi o mote da investigação.

«A identificação das grandes barreiras a remover é a chave do sucesso», acrescentam os investigadores, que elegeram a auditoria dos números de cirurgias como uma das bases sobre a qual deve assentar a mudança. O resto, depende de estratégias multifacetadas. Certo é que é possível baixar o número de cesarianas praticado actualmente. Sem medos.

Plano Nacional de Saúde estipula redução até aos 20 por cento
É mais um exemplo de medidas que não saem do papel. O Plano Nacional de Saúde, lançado em 2004, estipula que, até ao final da década, a taxa de cesarianas em Portugal deve ser reduzida para 20 por cento. O plano determina também que o número de cirurgias deve ser contemplado nos indicadores de qualidade utilizados para monitorizar o desempenho dos hospitais.

A dois anos do final do prazo, o número de partos cirúrgicos não só não diminuiu como escalou progressivamente. Portugal detém uma das mais elevadas taxas de cesariana da Europa - 34,7 por cento. Muito superior aos 23 por cento verificados no reino Unido ou aos 22 por cento registados em Espanha.

Luis Graça, presidente do Colégio de Ginecologia e Obstetrícia da Ordem dos Médicos, diz que existe uma recomendação oficial do Ministério da Saúde para que a taxa de cesarianas não exceda os 30 por cento.

O responsável sublinha que este tema será alvo de discussão no seio da nova Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal e que, na reunião que terá lugar em Dezembro, irá propor a formação de um grupo de trabalho para elaborar um relatório sobre o assunto no prazo de seis meses.
Os números do privado
Sobe para o dobro a percentagem de cesarianas efectuadas no sector privado em Portugal. Em 2005, nas unidades privadas de saúde, mais de 65 por cento dos bebés nasceram na sala de operações.

Há mesmo instituições onde a taxa de intervenções cirúrgicas no parto é superior a 85 por cento. A maioria das cesarianas são realizadas por indicação prévia. Uma vez que os obstetras que assistem partos no sector privado raramente estão inseridos numa equipa, a direcção do hospital não tem margem para impor normas ou protocolos. Cada um faz o que quer. E muitas vezes, a sintonia entre grávida e médico é perfeita. Todos os caminhos vão dar à cesariana.

http://www.paisefilhos.iol.pt/artigo.php?id=884605&div_id=3629

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Novos conceitos de saúde - workshop para técnicos de saúde

Com o patrocínio da Humpar vai realizar-se dia 29 de Outubro no Porto um workshop sobre humanização do parto para médicos e enfermeiros obstetras, parteiras e estudantes de medicina ou enfermagem com Debra Pascali Bonaro, doula e formadora certificada pela DONA International (Doulas Of North America).

Programa do workshop (clique na imagem para aumentar):

O custo do workshop é de 40 euros. Para inscrições ou mais informações, contactar a doula Bárbara Yu ou a Humpar (Associação Portuguesa pela Humanização do Parto).

sábado, 20 de outubro de 2007

Parto Humanizado

A discussão sobre Cesariana X Parto Normal é muito antiga aqui nas linhas cibernéticas. Quem milita nas listas de discussão há alguns anos sabe que este debate vai e volta, sistematicamente, como um ioiô ideológico. Esta ótica específica da humanização - como algo relativo ao "humano" - foi amplamente debatida nesta lista há alguns anos, e re-debatida sistematicamente de tempos em tempos. Eu tenho um ponto de vista bem claro sobre o assunto, expresso no meu livro e nas minhas palestras, de que a "Humanização do Nascimento" tem a ver com um movimento filosófico chamado HUMANISMO, que, contrapondo-se ao teocentrismo da idade média, coloca o ser humano em destaque e oferece a ele o protagonismo de seu destino. Meu colega Maximilian consagrou a frase "Humanizar o nascimento é restituir o protagonismo à mulher" exatamente para oferecer este direcionamento ao movimento que visa humanizar partos. Segundo ainda Maximilian, sem o protagonismo garantido à mulher somente conseguiremos a "sofisticação da tutela", que não oferece a profundidade das mudanças geradas pela insensibilidade do paradigma biomédico de atender as necessidades básicas de uma mulher parindo.

Desta maneira fica claro entender que uma cesariana não pode ser "humanizada" exatamente porque a mulher NÃO POSSUI o protagonismo: ela está à mercê da técnica e da assistência ostensiva do profissional que a atende. Por outro lado, é certo que uma cesariana pode ser "humana", tanto na concepção óbvia espécie-específica (pois é feita em seres humanos) quando na conotação de "gentil e respeitosa". Muito da discussão que observei sobre esta questão deve-se aos conceitos, ora equivocados, ora confusos, sobre o que vem a ser humanização. Cesariana é cirurgia, e no conceito que queremos dar à humanização ela NÃO tem como ser humanizada, pois aliena a mulher da sua condução (mesmo quando bem indicada). Por outro lado, um PARTO VAGINAL pode ser deveras DESUMANIZADO, e mesmo DESUMANO, quando impede a mulher de tomar qualquer decisão sobre seu corpo, ou quando a trata de forma rude, grosseira e mesmo violenta. Humanizar o nascimento é colocar a mulher como condutora do processo; tornar o parto "humano" é tornar a assistência mais suave, gentil e adequada. Entretanto, uma atitude gentil pode ocorrer até mesmo em partos desumanizados (sem protagonismo).

Eu acredito que esta discussão fica acalorada por causa de seu evidente conteúdo erótico. Explico: parto é constituinte da vida sexual normal de uma mulher. Quando falamos em nascimento, parto, dores, contrações, vagidos e gemidos, estamos falando do EROTISMO pulsante e vivo que permeia este momento. É por esta razão que a discussão fica tão forte, mesmo quando eu vejo nítidos vértices de contato nos discursos de muitos debatedores. Não há duvida que existem diferenças claras do ponto de vista emocional, afetivo, psicológico e físico entre um parto vaginal e uma cirurgia, a qual sem dó nem piedade rompe 7 camadas de tecido para atingir a intimidade uterina. É claro para todos, também, que uma mulher NÃO se define pelo tipo de parto que teve: ninguém é mais mulher por ter tido um parto normal. Por outro lado, ninguém é mais homem por ter as duas pernas, mas a ninguém parece justo negligenciar as suas, e tampouco existem pessoas para quem perder as pernas não tem importância. Assim podemos entender o parto normal: não define a qualidade de uma mulher, mas não pode ser entendido como supérfluo ou desprezível para ela. O evento do nascimento é um momento impressionante na vida de uma mulher; divisor de águas é capaz de fazê-la naufragar em uma depressão melancólica (por reforçar suas fantasias inconscientes de impotência) ao mesmo tempo em que pode alçá-la a um patamar inimaginável de segurança, auto-estima e determinação. Uma encruzilhada ímpar. É fácil ver que isso pode ser atingido SEM a experiência de um parto (que o digam Madre Teresa, Jesus Cristo, etc.), mas nem por isso podemos fechar os olhos à sua imensa potencialidade criativa.

A ansiedade que percebemos no que tange a esta discussão se origina exatamente de sua dimensão sexual. Falar do próprio parto é falar do seu sexo, da sua intimidade, de sua competência feminina. Por esta razão é importante que tenhamos esta visão até para que possamos contextualizar o debate e não torná-lo tão duro.

Ainda sobre os conteúdos sexuais, basta que estejamos presentes em um nascimento humanizado para perceber que TUDO ali transpira sexualidade. Uma mulher deixada vagar livremente pelos seus desejos pode encontrar o êxtase no nascimento de um filho. Permitindo-se que ela transite pelo gozo indescritível desta passagem - sem interrupção e sem censura - ela poderá descrever seu parto (como já fui testemunha tantas vezes) como o momento mais prazeroso de sua vida.

Pois é aí que está o segredo tão bem guardado !!

Aqui se encontra o mistério recôndito. Se as mulheres soubessem o quanto existe de realização e transcendência no ato de parir estas discussões terminariam da mesma forma como se dissipa a névoa com a chegada do sol. Foram os homens que inventaram as dores lancinantes de parto, apenas para fazer valer sua técnica e seus aparatos tecnológicos. Era preciso fazer a mulher descrer em si para que ela acreditasse na idéia que somente através da intervenção sobre este corpo defeituoso é que se alcança sucesso no nascimento.

Que triste !!

Tanta força e tanta energia sexual desperdiçadas !!! Mas eu dizia ao mestre Marsden que não acredito que possamos enganar todas as mulheres por todo o tempo. Um dia elas vão acordar de seu sono de menosvalia, e reclamar de volta o que sempre foi seu.Neste dia o nascimento humano voltará a ser um momento deslumbrante, para uma nova sociedade de paz.

Minha amiga Simone Diniz me disse há muitos anos uma frase que muito me irritou e me obrigou a refletir, até que eu finalmente aceitei e entendi: "A escolha pela cesariana é uma opção pela dignidade". O que vemos na sociedade contemporânea ocidental, no que tange ao parto, é um FALSO DILEMA: de um lado um nascimento violento regulado por pressupostos mecanicistas e positivistas, onde se aniquilam o psiquismo e a afetividade maternas em nome de uma ilusória objetividade cartesiana, junto com uma falsa promessa de segurança. Do outro lado uma cesariana, que é o ápice da alienação feminina sobre o nascimento, e onde se oferece o total controle médico sobre o evento. Neste contexto, optar por uma cesariana pode ser simplesmente o desejo de que seu parto seja minimamente digno, onde não haja alarido e violência verbal (por vezes física) na sala de parto. Optar pela cirurgia é ter controle (sim, o controle de decidir-se a fazê-la) para poder fugir da grosseria e da humilhação de parir sob o olhar de uma platéia onde podem até estar presentes curiosos, ignorantes e outros despreparados.

O drama é que estas são as DUAS ÚNICAS alternativas oferecidas nos dias de hoje: partos humilhantes ou cesarianas alienantes, "limpas e seguras". Quase NINGUÉM (ok, muito poucos) oferece um parto digno, bonito, prazeroso, carinhoso, afetuoso e digno. ESSA É A LUTA !!!

Os humanistas do nascimento não se contrapões às cesarianas (sou deslumbrado por esta história, de Edoardo Porro, passando por De Lee até os neo-cesaristas, como Marcelo Zugaib), mas nos insurgimos contra o abuso e a falsa promessa de redenção implícita no oferecimento de uma cirurgia como esta. Lutamos contra a objetualização e coisificação da mulher, seja numa cesariana ou num parto vaginal "Frankenstein", como bem dizia a Roselene. Somos visionários que enxergamos o nascimento como ATO REVOLUCIONÁRIO e libertário, que se opõe ao sexismo do patriarcado abrahâmico castrador, e que oferece uma nova visão para o porvir da humanidade, onde os nascidos de mulher serão acolhidos com amor.

A simples diminuição matemática do índice de cesarianas não parece ser algo adequado. Diminuir a incidência dessas cirurgias sem a concomitante modificação da ideologia da assistência ao parto só pode produzir uma situação mais dramática do que a anterior. A falta de compreensão do sistema biomédico contemporâneo das necessidades básicas de uma mulher ao parir está na gênese do descalabro na assistência. O problema reside no modelo cartesiano aplicado ao nascimento, que entende o psiquismo apartado da "Humani Corporis Fabrica", e define a mulher como um aparelho defeituoso, equivocado e falho em essência. Sem uma mudança radical na visão que temos da MULHER vamos apenas criar aberrações sobre aberrações, sem nunca atingir o núcleo do transtorno. Precisamos mudar a forma de entender o feminino, para assim modificar o olhar que lançamos às grávidas.

A tese do "protagonismo devolvido" e o rechaço à idéia de sermos "contrários à cesariana" são pontos nevrálgicos na discussão sobre a humanização do nascimento. Além disso, é importante trazer à tona a idéia de que abolir ou dificultar o acesso às cesarianas é inútil e até perigoso, porque a falha não é no seu uso (que não é causa, e sim conseqüência), mas na própria visão que temos da mulher e suas funções femininas. Precisamos nos dedicar a uma tarefa muito mais complicada e difícil do que simplesmente baixar nossas taxas de intervenção: necessitamos criar a "nova mulher", liberta dos grilhões do patriarcado e longe do revanchismo do antigo feminismo antropofágico. Precisamos, por fim, oferecer às gestantes e parturientes o suporte afetivo, espiritual e emocional que foi a marca de nossa ancestralidade, e aquilo que nos define como 'humanos", que é a capacidade de cuidar dos semelhantes (Leonardo Boff).
Ricardo Jones, MD*


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O Dr. Ricardo Herbert Jones é médico ginecologista, obstetra e homeopata em Porto Alegre, RS, no Brasil, onde já atendeu a mais de 1500 partos em 17 anos de profissão. Adepto do parto natural e um grande entusiasta do parto humanizado, é também um dos líderes mundiais na discussão sobre a melhoria da qualidade no atendimento às parturientes. É membro da Rehuna, consultor médico das Doulas do Brasil e do grupo Amigas do Parto. É também o coordenador para a área médica da HumPar - Associação Portuguesa pela Humanização do Parto e um grande amigo e apoiante das Doulas de Portugal, sendo um valioso participante na lista de discussão. Trabalha há vários anos em parceria com a doula Cristina Balzano e com sua esposa, a enfermeira obstetra Neusa Jones.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Aleitamento Materno: uma forma de salvar vidas

Hoje no Sociedade Civil, programa emitido em directo na 2: por volta das 14h, vai abordar-se o tema “Aleitamento Materno: uma forma de salvar vidas”.

16% das mortes de recém-nascidos podem ser evitadas através da amamentação dos bebés desde o primeiro dia de vida, revela um estudo recentemente publicado na revista científica Pediatrics. Na Semana do Aleitamento Materno que hoje começa vamos explicar quais as vantagens de amamentar: os nutrientes que o leite materno possui, contra que doenças pode proteger o bebé, de que forma reforça o vínculo com a mãe? Com os melhores especialistas dos parceiros do Sociedade Civil, vamos perceber que implicações este gesto tem no desenvolvimento e crescimento das crianças.

Convidados:
Ana Raposeira

Doula, representante da Associação Doulas de Portugal e voluntária do SOS Amamentação
Alexandra Bento
Presidente da Associação Portuguesa dos Nutricionistas
António Gomes
Médico Pediatra
Lúcia Leite
Presidente da Comissão especialista em Enfermagem de Saúde Materna e Obstetrícia

Em www.sociedade-civil.blogspot.com poderão ver os comentários ao programa. Todos os dias é colocada online a sinopse do tema do dia para discussão. Se quiser participar a posteriori, basta escrever o seu comentário e quando assinar, escolher a opção other e colocar o seu nome. > O programa emitido estará disponível logo depois da emissão em http://www.multimedia.rtp.pt

Rubrica: Doulas de Portugal
Ana Raposeira
A rubrica desta segunda-feira, a rubrica Doulas de Portugal visa informar os nossos telespectadores sobre o que são as Doulas de Portugal e que actividades promovem.

Semana Mundial do Aleitamento Materno


Decorre de 8 a 14 de Outubro a Semana Mundial do Aleitamento Materno. O programa está disponível em: http://www.mamamater.eu/SMAM07.pdf